"(...) e o cansaço nos olhos, nas costas ou no modo de caminhar, ou mais cedo ou mais tarde há-de chegar e manifestar-se, sem que se evite isso, sem que se possa fugir como correndo agora fujo não só da chuva, a maldita chuva!, mas também das recordações,
as gentes, as preces, as refeições, as amizades, as crianças
os amores, as crenças, as satisfações, as buscas, os futuros
o meu corpo- não posso negá-lo- o meu corpo ondula numa busca incessante que não traz pouso, nem sombra escura, nem uma simples esquina onde, ofegante e sujo, eu pudesse desaparecer- mas que fosse de mim, que eu pudesse fugir deste corpo que me atropela a existência e esta culpa brutal que me esmaga feito uma montanha sólida, negra, robusta
o meu corpo,
denso, tenso, pegajoso de um sangue que não é meu, me pudesse desacompanhar e ganhar rumo, solto, nu, ganhar rumo em nova errância, um corpo solto sem alma que o habitasse (...)"
Ondjaki

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