Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. Pra ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...
Castrado d'alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
- Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...
(...)
De embate ao amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
E que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo."
Mário de Sá Carneiro

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