"O amor deixou-o ou, como ele disse, a vida partiu-se-lhe ao meio. Talvez não ao meio: teria
chegado a vivê-la? Então, o que poderia
ter escrito era que a vida se lhe partiu antes
de ter dado por ela. Uma outra vida apareceu-lhe
nas mãos- e não sabia o que fazer com
esse objecto sem passado nem futuro, esse fruto
de tempo puramente presente, essa pedra que
lhe queimava os dedos, embora estivesse fria como
o gelo que sobra da madrugada. É que o amor,
quando faz parte do sonho que se tem para uma vida,
o amor, quando nunca se pôs outra possibilidade para
o ser, torna-se uma obsessão que cresce por dentro
da cabeça, como o mais abstracto dos tumores, e
ocupa os pensamentos como se não houvesse, para
além dele, outras coisas na vida. (...)"
Nuno Júdice

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