30 dezembro 2006


"Teoricamente livre para navegar entre estrelas

minha vida tem limites assassinos

Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!

Inventei um deus só para que me matasse

Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me

Escrevi cartas a minha mãe desesperadas

colori mitos e distribuí-me em segredo

e ao fim ao cabo

recomeçar

Mas estou cansado de recomeçar!

Quereria gritar: Dêem árvores para um novo recomeço!

Aproximem-me a natureza até que a cheire!

Desertem-me este quarto onde me perco!

Deixem-me livre por um momento em qualquer parte

para uma meditação mais natural e fecunda que me limpe o sangue!

Recomeçar!




Mas originalmente com uma nova respiração

que me limpe o sangue deste polvo de detritos

que eu sinta os pulmões com duas velas pandas

e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade

em nome dos animais e dos utensílios criadores

em nome de todas as vidas sacrificadas

em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes

em nome dos países em nome das crianças

em nome da paz

que a vida vale a pena que ela é a nossa medida

que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias

que o reino da bondade dos olhos dos poetas

vai começar na terra sobre o horror e a miséria

que o nosso coração se deve engrandecer

por ser tamanho de todas as esperanças

e tão claro como os olhos das crianças

e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele"


António Ramos Rosa

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