"Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas, boas, más,
Trabalhos, e prazeres, e ofícios,
Todos lugares, viagens, explorações,
Crimes, lascívias, decadências todas.
Dantes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.
Hoje não, fujo dessa ideia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo- humanas,
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer
Mudando sempre a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.
Quero
Afogar em bulício, em luz, em vozes,
Tumultuárias cousas usuais,
O sentimento de desolação
Que me enche e me avassala.
Folgaria
De encher num dia, numa hora, num trago
A medida dos vícios, ainda mesmo
Que fosse condenado eternamente-
Loucura- ao tal inferno."
Fernando Pessoa

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