17 janeiro 2008


(bird3 by ilsire)


"estou aqui sem raízes. decepada rente aos
braços de alguém que é teia. rosto em branco
penumbra e dor.

estou sem saber do vento. das areias. das aves.
mais concretamente não sei das águas.
perdi a montanha. os pássaros. a gargalhada.

estou aqui como se pode estar na transparência
duma voz surda. dum apelo de neve. que não nasce.
que antes de ser sílaba é machado. corte. memória.

que antes das horas é esfinge. ventre ilibado de
culpa. lábios despenhados no pó.

estou aqui à espera dum deus que a existir
há-de crescer em mim como um filho ou como um rio.

e enquanto não se rasgam as fontes entrego-me
ao mistério de ser outra e nunca serpente."

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