"quero falar aqui do meu amor, quero falar
quando o silêncio é de oiro ensimesmado,
o tempo é de ferrugem,
e o espaço é de água na longa solidão
riscada pelas aves.
pobre relento dos sonhos que sonhamos:
passámos por aqui, os olhos rasos de luz
e o coração embalado por um fio de música
a diluir-se no crepúsculo
com as águas morosas, a
sombra a carregar-se ao rés das casas, as
rosas semicerrando-se numa leve respiração.
águas do douro que corriam, para onde
levavam as lembranças como barcos
que se esquecessem do seu rumo?
leve brisa do mar que nos chegava,
salina sem sabermos
que anunciava as lágrimas, de que fundo
dos mares atormentados arrancava?
cais humilde das cargas, quem diria
que ali só atracavam desventuras?
ah, só quero falar desta golfada a desprender-se
de sonho e oiro a que te misturavas
num ledo encantamento entre rumores
que se apagavam fulvos em surdina
e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco
emudeciam comovidas. noite, ó noite
que cobriste essas horas do teu luto,
quando será manhã para que seja
outra tarde outra vez essa harmonia?"


Sem comentários:
Enviar um comentário