22 agosto 2008

"Agora, as gotas de chuva que caem sobre a piscina, espaçadas e imprevisíveis, parecem-me a imagem que melhor descreve aquilo que existe dentro de mim e, no entanto, sei que se me sentasse a imaginar uma imagem concreta para reflectir este sentimento, nunca me lembraria desta visão simples, aqui, à minha frente: gotas de chuva a caírem sobre a piscina.

A minha idade irá parar no momento em que partires. Será uma espécie de morte cinzenta ou de ausência. És tu que partes, mas sou eu que desapareço. Para onde fores, haverá pessoas, que já existem agora, que respiram. No teu caminho, serão como pontos intermitentes de brilho. Talvez fales para essas pessoas, talvez elas te chamem pelo nome. Para onde fores, haverá mundo e vida. Aqui, continuará apenas esta varanda onde estou: um balcão inútil sobre a paisagem, que se dissolverá numa cor única assim que partires. Sem surpresas, passarei a mão pelo cimento. Essa será uma carícia imaginária e desperdiçada.


Mas isso será depois, quando existirem lâminas em todas as lembranças, incêndios, horas suspensas e irreversíveis. Agora, estou aqui e ainda não partiste. A despedida já começou em cada palavra porque sei imaginar o silêncio, conheço-o. Engano-me a acreditar que só eu sei conhecer o silêncio. Como tantas vezes, a mentira é uma forma de consolo, de sobrevivência. E ainda não partiste, e estou aqui. Dentro de mim, gotas de chuva caem sobre uma superfície lisa de água, misturam-se com ela e perturbam-na desde o seu interior, desenham uma organização impossível de círculos que se alargam e que colidem. Agora, o céu triste. Agora, a tranquilidade frágil e crua, cruel, de gotas de chuva que caem sobre a piscina."


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