"mas nós nunca aceitamos a noite sem remédio
nem a treva por substância do destino:
percorre-nos uma íntima ansiedade
de salvação até ao último momento,
já sem nada a fazer e sem acreditarmos,
já com tudo contado, pesado, dividido,
é fatal que inda a esperança persista no limite
e por isso vivemos e nos comove a vida.
oxalá (...) e riam e se assustem e percam a cabeça
e se comovam no seu próprio desvario
e respirem em vários ritmos acelerados
e digam coisas sem sentido ou desmedidas
e sejam imprudentes e exagerem
e se toquem e se enlacem, se percorram e se mordam
e se sintam a implodir e a explodir
e fiquem horas esquecidas a comtemplar-se
e se descubram atabalhoadamente
e acreditem no que está a acontecer-lhes
e se apostem contra tudo e contra todos,
se resguardem do tempo e das catástrofes,
e se envolvam na música, se desfraldem ao vento,
e corram pelas praias e deslizem na neve
e se inventem de barco e no mar se devorem
e se vão aquecer nas fogueiras do inverno
e se bebam e entornem, se amarrem e desprendam,
e atravessem as pontes e se elevem nos ares,
se extenuem, se queiram, se adormeçam, se acordem,
e se vejam no ponto em que os olhos são luz
e se lembrem e esqueçam, se interroguem, se entendam,
e nada mais exista e tudo o mais exista."


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